AGENDA DO CARNAVAL

Nesta Quarta-feira de Cinzas, 25 de fevereiro, grande roda de samba com Band’doido no SESC Bertioga, ás 12hs, em frente ao restaurante.

RESSACA DE CARNAVAL com Band’doido
apresentando a Roda de Samba Cênica
“É brasileiro, já passou de português!”
Neste sábado, 28 de fevereiro, ás 17hs, no CEU Guarapiranga.
Estrada da Baronesa, 1.120, M’Boi Mirim, zona Sul
Entrada Gratuita

Ia uê ererê aio gombe
Com licença do curiandamba,
Com licença do curiacuca,
Com licença de sinhô moço,
Com licença de dono de terá.

(canto dos escravos - Canto I)


Yáyá Massemba

Que noite mais funda calunga/ No porão de um navio negreiro /Que viagem mais longa candonga /Ouvindo o batuque das ondas /Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro /É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito /Kawo Kabiecile Kawo Ô Ô Okê arô oke Quem me pariu foi o ventre de um navio /Quem me ouviu foi o vento no vazio /Do ventre escuro de um porão
Vou baixar o seu terreiro /Epa raio, machado, trovão Epa justiça de guerreiro /Ê semba ê ê Samba á /o balanço das ondas Nas noites mais longas Me ensinou a cantar /Ê semba ê Samba á / Dor é o lugar mais fundo É o umbigo do mundo É o fundo do mar /Ê sembra ê Samba á /No balanço das ondas Okê aro Me ensinou a bater seu tambor /Ê semba ê Samba á
No escuro porão eu vi o clarão do giro do mundo /Que noite mais funda calunga... /Ê semba ê ê samba á /é o céu que cobriu nas noites de frio minha solidão /Ê semba ê ê samba á
é oceano sem, fim sem amor, sem irmão ê kaô quero ser seu tambor /Ê semba ê ê samba á /eu faço a lua brilhar o esplendor e clarão luar de luanda em meu coração
umbigo da cor
abrigo da dor
a primeira umbigada massemba yáyá massemba
é o samba que dá
Vou aprender a ler
Pra ensinar os meu camaradas!
(Roberto Mendes e Capinan)




O QUE É ESTE PROJETO?

ESSE TEATRO DÁ SAMBA
Desde abril de 2006, um grupo de jovens atores, músicos e dançarinos da região M’ Boi Mirim, extrema Zona Sul da cidade de São Paulo, se reuniram para vivenciar e estudar o samba através de diversas linguagens artísticas - a música, a dança, o teatro, a literatura, cinema -, que convergiu no espetáculo teatral “...não é contar piada!”. Neste percurso, acabamos por entender um pouco mais sobre nossas raízes brasileiras, a partir do contato com a história do negro, do samba, da miscigenação, sendo a arte uma importante ferramenta de conhecimento e compreensão de um Brasil, muitas vezes esquecido e não divulgado.Todo este processo vem propondo, essencialmente, um roteiro de comunicação consigo, com o espaço e com o outro a partir dos sentidos, da imaginação e da inteligência, de forma que há espaço para a expressão livre em que o teatro e o samba são elementos provocadores de nossas relações no grupo. Assim, constituiu-se o grupo Band’Doido, que no primeiro ano de sua existência contou com a realização da VAI – Valorização das Iniciativas Culturais.

Outro importante parceiro foi o Bloco do Beco que nos acolheu em seu espaço e sempre esteve presente no processo.

http://blocodobeco1.blogspot.com/

Que tudo isto foi um crescimento para cada envolvido é fato. Portanto, o grupo se pergunta atualmente como tornar este crescimento mais presente na comunidade em que vivemos e trabalhamos? Por isso, o Band´Doido além de um grupo teatral, quer ser um agitador cultural no bairro, divulgando seu trabalho cênico e sua pesquisa com o samba. E suas prioridades para este projeto consistem em aprofundar suas pesquisas na música e no teatro dialogando com a comunidade.





O Projeto ESSE TEATRO DÁ SAMBA está em seu segundo ano de percurso. Nele o Grupo Band´doido pesquisa o Samba, o Teatro, o Canto e a Percussão. Tem o espetáculo “...não é contar piada!” em que os atores convidam o público a passear por um Teatro-Enredo. Neste ano, a pesquisa se direciona para a Roda de Samba Cênica em que vão construindo os arranjos musicais e cênicos no repertório do samba de raiz da Bahia, Rio e São Paulo. Em parceria com o Bloco do Beco, o projeto conta com a montagem da Midiateca do Samba, com o acervo de livros, CDs, vinis e filmes sobre este gênero. Se você quiser colaborar com doações será um grande prazer receber seu contato.


E ainda, a mostra Pro Cinema Samba – Mostra de Películas Sobre Samba e Outros Ritmos que acontece na escadaria ou beco em frente ao Bloco do Beco, numa parceria com o Grupo Umoja que realiza uma Roda de Samba e o Samba de Roda e o CineBecos vem com a projeção. No dia 19 de julho de 2007 realizamos nossa primeira exibição. O filme escolhido foi o documentário Geraldo Filme, de Carlos Cortez. Esta foto ao lado registra um dos momentos da exibição. Usamos a escadaria em frente ao Bloco do Beco, o público venceu o frio, sentou-se nas caixas de papelão que Carla (do Bloco) junto dos garotos da rua arrumaram em instantes.
Foi servido um caldo de feijão feito pelo Luis (do bar), acompanhado do torreminho frito pela minha avó, a dona Maria.
Outro animador foi a roda de samba feita pelo grupo Band´doido que tocou Noel Rosa, Paulo Vanzolini, João Bosco, entre outros. Esta roda aconteceu antes do filme. E logo após a exibição foi a vez do Grupo Umoja iniciar sua roda seguida do Samba de Roda.



http://institutoumoja.blogspot.com/

Aqui, fotos do espetáculo "...não é contar piada!" em apresentações no Projeto Anchieta (Grajaú), Sala Paissandú (Galeria Olido), Projeto Comunidade Fazendinha (Vila das Mercês) e em Parelheiros.








Abaixo, foto após o ensaio no Bloco do Beco.



...não é contar piada!
Grupo Band´Doido

Com Alan Bernardino, Alex Domingos, Molsley Eduardo Vasconcelos, Elessandre Nascimento, Laís Cintra, Aline Ábrego, Loa Nascimento.
Direção: Carlos Gomes
Direção Musical: Melissa Maranhão
Preparação Vocal e Musical: Melissa Maranhão
Preparação Percussão: Alan Bernardino
Dança de Salão: Jaqueline Gomes
Iluminação: Carlos Gomes
Cenário e Figurinos: Grupo Band´Doido


A peça? Uma Avenida onde passa um Teatro-Enredo que buscou na Música e nas Artes Corporais viver o ritmo tão perseguido mas que misteriosamente se tornou o símbolo deste povo. Um ritmo em meio a dor. E dela, uma tristeza bonita, como nos canta Candeia. E num Feitio de Oração, de Noel Rosa e Vadico ( encontro entre um carioca e um paulista só poderia dar numa das mais lindas canções), estes versos bem dizem do nosso sentimento: “Sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia dentro da melodia”. Nossos botequins. Nossas ruas. Nossos carnavais. Nossa casa. Nosso Samba. Chora cuíca, soa pinho, esquenta pandeiro, marca surdo, agita tamborim. O Samba vai começar.





"É brasileiro, já passou de português!"

Este é o nome da Roda de Samba Cênica do Band´doido que foi tirada da música "Não tem tradução" de Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva.

"Tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, é brasileiro, já passou de português."

O repertório escolhido é curto pois a pretenção do grupo é tirar destas músicas o máximo de jogo cênico-musical que elas oferecem para estabelecer esta roda teatral, pois o samba que nos uniu veio sob encomenda do teatro. Nas brincadeiras semanais, o costume de cantar muitas músicas dos cd´s compilados especialmente para a pesquisa (mais de 300 canções e isto é muito pouco!!!) vieram a escolha muito cuidadosa do que cantar diante do público.
A cara dos sambas, da roda, tem um certo jeito de fazer do Band´doido, mas mesmo que em seu repertório haja sambas paulistas, o modo de expressar as canções tem um tom bem carioca. O grupo não acha isto ruim, porém não é o maior objetivo de sua pesquisa ter a cara assim ou assado, mas levar o samba, mas antes disso, vivê-lo. Porém, um de seus maiores desejos é viver o samba paulista, o samba rural. Isto acontece timidamente, no repertório tem Paulo Vanzolini, Geraldo Filme e Adoniran Barbosa, e de quebra Vadico, parceiro de Noel Rosa que era de Saõ Paulo.

Aos poucos, o grupo visita rodas paulistanas, shows, assiste peças de teatro, tudo o que pode inspirá-los. As leituras são recorrentes, visto a troca de livros que fazem entre si. Não é só fazer samba de pesquisa, se é que existe este termo, mas a possibilidade de conhecer um Brasil através dos registros e manifestações que transformaram dor em alegria!!!
Salve o SAMBA. Salve o povo Brasileiro! Salve!!!

Música de introdução: Batucada do Band´doido (Estudo Percussivo d'doido) 1 - Não Tem Tradução (Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva) 2 – Universo ao meu redor (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown eMarisa monte), Meu Canário (Jayme Silva) 3 – Isto aqui, o que é? (Ary Barroso) 4 – Chorava no meio da Rua e Volta por Cima (Paulo Vanzolini) 5 – Batuque de Pirapora ( Geraldo Filme) 6 – Camisa Amarela (Ary Barroso) 7 – O Orvalho vem Caindo (Noel rosa e Kid Pepe), Deus lhe Pague (Chico Buarque) 8 – As Mariposas (Adoniran Barbosa) 9 – Alegria (Assis Valente e Durval Maia), A Alegria Continua (Mauro Duarte e Noca da Portela) 10 – O que é, o que é? (Gonzaguinha) 11 – Se é pecado Sambar (Manoel Sant´Ana)



A Midiateca do Samba

Iniciou-se uma campanha para arrecadação das diversas mídias relacionadas ao Samba, desde LP´s, cd´s, vídeos, dvd´s, para a criação de um acervo na comunidade da Região do M’Boi Mirim para que a comunidade tenha maior acesso ao samba. Temos um número pequeno de livros, cd´s, dvd´s, LP´s que desejamos colocar a disposição da comunidade o mais urgente. Pretendemos também, disponibilizar no espaço toca-discos, TV, DVD, para que nosso a comunidade também possa permanecer em nossa localidade.

Aqueles que quiserem colaborar seja com o que for, entre em contato conosco: esseteatrodasamba@gmail.com .









Adoniran Barbosa, Saudosa Maloca. Texto de LÚCIA OLIVEIRA DA SILVEIRA SANTOS. São Paulo Dá Samba

Saudosa maloca

Após o sucesso repentino de “Dona Boa” e que foi embora tão rápido quanto veio, Adoniran Barbosa dedica-se a outras profissões. Segundo Moura (2002), Adoniran atuou, entre outras coisas, como caixeiro, tipógrafo, oleiro, comerciante, funcionário público, garçom e varredor. E, nos quinze anos posteriores, suas composições retratam cenas de amor e embarcam na fase melodramática pela qual a música passaria e que seria chamada de “dor-decotovelo17”. Trabalhando nas estações de rádio paulistanas, maior veículo de
comunicação da época, Adoniran Barbosa conhece Osvaldo Moles, roteirista de rádio que cria diversas personagens para serem vividos por ele, utilizando uma linguagem que misturava as letras, que não seguia regras gramaticais, mas que era genuinamente paulista – uma vez que São Paulo estava repleta de imigrantes que mal conheciam o português e tentavam se entender criando, assim, um novo dialeto.

Adoniran incorpora esse jeito caricato de falar e começa a compor também como uma personagem caricata – vale ressaltar que o autor, como a maioria de seus contemporâneos, também não conclui nem mesmo o ensino primário. Milton Parron (2004, p. 67), destaca que, por meio de suas composições, Adoniran

[...] deu voz aos excluídos sociais, muitas vezes compondo em uma
linguagem que reconstituía a mistura de diferentes sotaques dos
imigrantes de São Paulo. Ele foi um dos poucos artistas capazes de
retratar sua gente, a realidade urbana dos anos 1950 e 1960, o cotidiano
paulistano da época, suas personagens anônimas e o progresso, que
demolia casarões e cortiços para edificar arranha-céus.
16 Um dos ditados que Osvaldo Moles escreveu para Adoniran narrar, por meio do personagem Charutinho,
no programa História das Malocas. (CAMPOS JR, 2004, p. 313).
17 Esse estilo musical surgiu em 1929, tornou-se conhecido nas canções de Lupicínio Rodrigues (1914 -
1979), principalmente nos anos 1940 a 1950, com canções melancólicas que expressavam desilusões
relacionadas ao amor. (FALCÃO, 1988)

Assim, em 1951, nasce uma de suas mais famosas composições – que o
consagra definitivamente como o maior compositor de sambas paulista:

“Saudosa Maloca”.
Saudosa maloca, maloca querida
Onde nós passemo dias feliz de nossas vida
Se o senhô não tá lembrado dá licença de cantá
Que aqui onde agora está esse edifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Que eu Mato Grosso e o Joca
Construímo nossa maloca
Mas um dia, nem quero me lebrar
Chego uns homes co’as ferramenta
O dono mandou derrubar
Peguemo tuda nossas coisas
E fumus pro meio da rua
Espiá a demolição
Que tristeza que eu sentia
Cada tauba que caía doía no coração
Mato Grosso quis gritar
Mas em cima eu falei
Os home está co’a razão
Nóis arranja otro lugar
Só se conformemos
Quando o Joca falou
Deus dá o frio
Conforme o cobertor
E hoje nóis pega paia
Nas grama do jardim
E pra esquece nóis cantemos assim
Saudosa maloca, maloca querida
Onde nós passemo dias feliz de nossas vida.


A cidade de São Paulo é dinâmica e exige desapropriações, porém, partindo do pressuposto que:

[...] a Hospitalidade [...] é um fenômeno que implica uma organização,
um ordenamento de lugares coletivos e, portanto, a observação das
regras de uso desses lugares.
Essas regras devem ser, portanto, observadas e preservadas por meio
dos princípios de hospitalidade como, por exemplo, assegurar a todos os
cidadãos o acesso a equipamentos e serviços, transportes públicos,
trabalho, etc. (GRINOVER, 2005, p. 94).

A cidade não nos parece assegurar os direitos do cidadão e, portanto, a observação de Adoniran é um registro da hostilidade de São Paulo para com os seus. A história de “Saudosa Maloca” é o primeiro registro das preocupações socioculturais que perpassam a maioria das composições posteriores de Adoniran Barbosa. Retratam questões urbano-sociais de identidade, legibilidade e acessibilidade, de maneira sutil e tragicômica. Tragicômico porque, segundo Bento (1990, p. 222):

Adoniran Barbosa é um contador de estórias por excelência. A maioria
de suas músicas se faz no diálogo entre estes dois pólos: o trágico e o
cômico. Chora o atropelamento através do requebro do sincopado do
samba; chora o desamor na batida da caixa-de-fósforos; chora a
demolição no rasqueado do cavaquinho. Sua linguagem humorísticomusical
“ri da própria sorte” na legitimidade do samba.

Dentre essas questões urbano-sociais, uma das mais retratadas por Adoniran Barbosa é a questão da moradia, presente em “Saudosa Maloca”. Para melhor contextualizar esse estudo, acredita-se que caiba, aqui, uma investigação sobre a origem das malocas. As mais antigas habitações proletárias de São Paulo eram os cortiços, de muitos cômodos, que se expandiam com a chegada dos imigrantes. Nas últimas décadas do século XIX, cresciam as casas próprias de periferia, cujo agrupamento é denominado favela (KOWARICK e ANT apud KOWARICK, 1994, p. 73). Os dois tipos de habitação ficaram conhecidos popularmente como “malocas”. A explicação tem inspiração no termo indígena, que designa uma moradia onde vivem e convivem diversas famílias (LOPES, 2005, p. 11). No nordeste, o termo “maloqueiro” (morador da maloca) tinha conotação pejorativa, relativa a pessoas suspeitas, de baixa confiança (MANDULÃO, 2003, p. 8). Com a forte migração nordestina para São Paulo e o grande número de cortiços habitados, principalmente por italianos, a gíria teria adquirido um único significado e toda habitação que abrigasse muita gente, pobres ou mendigos, consideradas como sub-moradias foram tachadas de maloca. No entanto, a melhor descrição para as malocas retratadas por Adoniran Barbosa, parece ser aquela feita por Osvaldo Moles18, companheiro do compositor, que teria sido o principal responsável por fazer com que o artista visse, nas questões sociais, temáticas para suas músicas. Segundo Moles:

A maloca é o maior esforço que o nada já conseguiu fazer para chegar a
ser casa. A maloca mais confortável consta de quatro caibros, umas
traves, algumas latas de banha em que se bateu até voltarem ao estado
normal de folha. Cômodo único em que se faz cozinha, refeitório,
dormitório, banheiro, vida social, vida insocial etc. Nesse ajuntamento de
taperas – onde casa nova já nasce em ruínas -, nesse conglomerado
irregular, como dentadura de “baiano” mordendo a paisagem, é que vão
nascendo os tipos da última escala da humanidade. (MOLES, s/i apud
CAMPOS JR, 2004, p. 313)

É nesse mundo de “malocas” que se dá a saga dos amigos do narrador, Mato Grosso e Joca, iniciada por uma frase que retrata o vínculo dos moradores com a residência, por mais que esta seja apenas uma maloca: “Saudosa maloca”. Para Bento (1990, p. 50), a temática de Adoniran

[...] falava muito em maloca apesar de nunca ter morado em favela e
nunca ter sido maloqueiro. [...] O marginal a qual Adoniran se referia em
sua humorismo radiofônico e em suas composições, não era o
maloqueiro completamente dito, mas aquele indivíduo pertencente à
classe social menos privilegiada e sem emprego.

Na década de 1950, quando “Saudosa Maloca” foi escrita, já eram abundantes as residências mal organizadas urbanisticamente. Segundo Souza (2004, p. 547) a chegada descontrolada de migrantes e imigrantes e o processo de verticalização que se dava no período, acelerou o processo de formação das periferias, das moradias sem infra-estrutura adequada, que caracterizavam a paisagem de São Paulo em contraposição aos edifícios luxuosos que se erguiam.

O inchaço populacional representou, para a paisagem da capital
paulista, a incorporação das favelas – uma característica das metrópoles
subdesenvolvidas. Acentuava-se o desequilíbrio entre as áreas mais
próximas do centro, bem organizadas urbanisticamente – e a ocupação
18 - Cf. Capítulo 1: “A música de Adoniran Barbosa como fonte de pesquisa”.
caótica da periferia – com sua enorme população de baixa renda,
formada, sobretudo, por migrantes pobres. (PARRON, 2004, p. 60)

É evidente que, na letra de “Saudosa Maloca”, retrato do processo de verticalização da cidade nos anos 1950, as lembranças que seus moradores criaram, em sua memória, o retrato de um local muito distante da concepção de
uma maloca, que é comparada à degradação, mas algo mais próximo de um lar, um local onde vivenciaram bons momentos, próximos uns dos outros: um “palacete”. Segundo Ponciano (1999, p. 18), as malocas que formaram as favelas eram consideradas pelas secretarias responsáveis como simples invasões de espaços públicos e privados, sequer ganharam o “status” de habitação; são elementos que apenas “enfeiaram” a paisagem. Embora aqui exista uma clara relação da música de Adoniran com a questão de legibilidade, já que a preocupação maior do autor parece ser o acesso da população à moradia. Segundo Pochmann (2001, p. 87), em 1950, menos de 16% das famílias de trabalhadores possuíam casa própria. A verticalização de São Paulo, na década de 1950, que visava o desenvolvimento da chamada “locomotiva do Brasil”, não escapou aos olhos do compositor, que, por intermédio dos olhos dos moradores da maloca, retrata a edificação dos bairros. Embora tristes, as personagens citadas se conformam diante da “não poder fazer nada” e do poder que é conferido aos “homens com ferramentas”. Inusitado é o fato de suas personagens interagirem com o responsável pela demolição (“Seu Moço”), contando-lhes sua história. A inspiração teria vindo por meio de uma nota de jornal, onde o autor verificara que o prédio que abrigava alguns amigos, moradores de rua (Matogrosso, Mário e Corintiano), seria demolido para a construção de um edifício. (MOURA, 2002, p. 83) Embora muito comuns na época, as demolições sempre foram realizadas por pessoas que também são da classe trabalhadora e que possuem poucos recursos, muitas vezes habitando locais semelhantes aos que derrubam. A necessidade de trabalho faz com que excluídos socialmente sejam também os
executores da demolição da moradia de seus semelhantes. Talvez, por acreditarem que suas vidas possuíam aspectos semelhantes, as personagens de Adoniran realizem um desabafo com os demolidores, mas recebem a resposta resignada dos que devem apenas executar o serviço e “têm razão” em dizer: “o dono mandou derrubar”. O dono, supostamente de outra classe social, é colocado como sujeito-oculto por Adoniran, embora causador da expulsão dos invasores, não presencia a cena da demolição.

Por fim, o compositor retrata um dos rituais do trabalhador braçal: “pegar uma paia”, ou seja, um cochilo após as refeições. As personagens aproveitam para vivenciar o momento no gramado da edificação construída no local que um dia lhes pertenceu, e a saudade é também confortada pela cantoria. Neste caso, fazem-se presentes na obra aspectos referentes à identidade paulistana, de um
povo trabalhador, operário das fábricas e das obras de verticalização. Cinco anos mais tarde, Adoniran, em parceria com Raguinho, voltaria à temática e daria vida novamente às personagens em “Arranjei outro lugar”.

Falei,
Com Mato Grosso a noite inteira
Pra ele se agüenta
Falei,
Que já arranjemo outro lugá
Pra nóis tudo ir mora!
Ele chora feito criança
Não qué se conformá
Tá sempre cantando assim
Saudosa maloca
Maloca querida
Dindindonde nóis passemo
Dias feliz
De nossas vida

Em “Arranjei outro lugar” a resignação dos antigos moradores diante do infortúnio desaparece, mas o choro é a única maneira utilizada pela personagem para extravasar o inconformismo. Cabe, aqui, lembrarmos Matheus, quando afirma que “esse enraizamento espacial pode ser mais ou menos forte, mas não se pode conceber um ser humano ou uma coletividade que não tenha algum tipo de vinculação espacial” (MATHEUS, 2002, p. 64). Por mais que exista um novo lugar para os desalojados, o vínculo com o local antigo permanecerá. Pode-se traçar uma relação da música de Adoniran Barbosa com as considerações que Lima (1997) faz em relação à visão de modernidade e o progresso que impera na São Paulo dos anos 1950. Para a autora progresso e mudança são noções que só puderam se constituir sobre a lógica do arrasamento, da desconstrução, da demolição de casas. Se, para as personagens de Adoniran, essas construções eram representações de segurança e acolhimento, representavam também, no processo de verticalização da cidade, uma imagem do passado que se pretendia superar (Id. Ibidem, p. 90 et seq.). Ainda na década de 1950, a questão da moradia foi novamente tema das composições de Adoniran, suscitando a necessidade de trabalhar para conquistar uma nova casa. Desta vez, o narrador não se submete às autoridades, ao contrário, solicita a um amigo com certa ascendência política, que consiga uma autorização para a construção de seu novo lar, mesmo que por meio de certas ilegalidades. A corrupção política, ou talvez a força das relações pessoais que se sobrepõem à letra da lei, é mais uma das colocações do artista sobre o cotidiano da cidade. As ilegalidades e as amizades poderosas parecem não ser um “privilégio” da sociedade atual, tendo raízes mais antigas:

Abrigo de Vagabundo (1958)
Eu arranjei o meu dinheiro
Trabalhando o ano inteiro
Numa cerâmica
Fabricando pote
E lá no Alto da Mooca
Eu comprei um lindo lote
Dez de frente, dez de fundo
Construí minha maloca
Me disseram
Que sem planta não se pode construir
Mas quem trabalha
Tudo pode conseguir
João Saracura
Que é fiscal da prefeitura
Foi um grande amigo
Arranjou tudo pra mim
Por onde andará
Joca e Mato Grosso
Aqueles dois amigos
Que não quis me acompanhar
Estarão jogados
Na avenida São João
Ou vendo o sol quadrado
Na detenção
Minha maloca
A mais linda que eu já vi
Hoje está legalizada
Ninguém pode demolir
Minha maloca
A mais linda desse mundo
Ofereço aos vagabundos
Que não têm onde dormir.
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